Novo centro de pesquisas climáticas é inaugurado no Rio de Janeiro


O Rio de Janeiro ganhou um novo centro de pesquisas sobre o clima. Foi inaugurado na tarde de ontem (14), no Museu do Amanhã, o Climate Hub Rio, uma parceria entre a Universidade de Columbia (EUA) e a prefeitura da cidade. O centro, que oferecerá financiamento a pesquisas, apoio a programas de intercâmbio e eventos abertos ao público, funcionará na sede carioca do Columbia Global Centers, no centro do Rio. O Climate Hub contará com um investimento de mais de R$ 15 milhões da prefeitura da cidade.

Na inauguração, autoridades, pesquisadores e ativistas falaram sobre os efeitos das mudanças climáticas, como combatê-las e como a cidade e o centro podem contribuir para isso. Ao longo de cerca de 4 horas, divididos entre discursos e debates, o público pôde ter uma ideia das questões que o Climate Hub abordará, e o que pensam algumas das figuras mais relevantes no combate à emergência climática na administração pública, academia e sociedade civil.

Além disso, foi anunciado também o Conselho Técnico do centro de pesquisas, que contará com nomes como o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), o secretário-executivo do Ministério dos Povos Indígenas, Eloy Terena, a ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, o climatologista Carlos Nobre, o professor Thiago Amparo e os ambientalistas Daniela Lerda, Natalie Unterstell e Sergio Besserman, assim como nomes ligados à universidade americana.

O Climate Hub funcionará com foco em quatro eixos principais: ensino, com participação de professores da Universidade de Columbia; organização de eventos, com temas como transição energética, uso da terra e equidade climática; a criação de uma rede de pesquisadores, que divulgará o trabalho realizado pelos integrantes do centro; e ação, que buscará promover impactos concretos na política climática em nível municipal, nacional e internacional.

Autoridades destacam compromissos ambientais

Em suas falas, autoridades do governo federal destacaram o compromisso do Brasil com a agenda climática. Celso Amorim, assessor especial da Presidência e ex-ministro das Relações Exteriores, afirmou que o clima hoje é um “tema central” na política externa brasileira, citando a volta do Fundo Amazônia como exemplo de cooperação internacional pelo meio ambiente. Segundo o embaixador, as questões climáticas são tão importantes que afetam até questões tidas como distantes no senso comum. “Questões climáticas geram problemas migratórios, geram problemas de vários tipos, e esses problemas geram conflitos. Então a questão climática tem a ver até com a guerra e a paz”, afirmou.

Ana Toni, secretária nacional de Mudanças do Clima (que substituiu a ministra Marina Silva, internada em Brasília com sintomas gripais), também destacou a volta do Fundo Amazônia e citou 5 prioridades de sua pasta:

  • Rever a Política Nacional sobre Mudanças do Clima, incluindo metas;
  • Ter um plano de adaptação “muito forte e seguro”, com participação das populações afetadas;
  • A incorporação dos oceanos e áreas costeiras no plano climático;
  • O fortalecimento da governança climática, transversal a diversas áreas do governo;
  • Corte de emissões, estabelecendo um modelo de desenvolvimento de baixo carbono.

Em nível municipal, o prefeito Eduardo Paes destacou a importância do centro, em parte financiado pela cidade, para a colaboração científica internacional no enfrentamento às mudanças climáticas. Segundo ele, o Rio é uma cidade “muito vulnerável” aos eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes e que exigem medidas à altura. O prefeito disse que a cidade “se compromete” a compensar 5% de suas emissões de carbono até o ano que vem, 20% até 2030, e 100% até 2050, todos comparados aos índices de 2017 – metas que a ambientalista Natalie Unterstell, presente no painel seguinte, criticou como pouco ambiciosas.

Já a secretária municipal de Ambiente e Clima da cidade, Tainá de Paula, destacou a importância de se inserir as favelas nas políticas públicas ambientais, já que em muitos casos elas se encontram coladas a florestas urbanas, citando comunidades “mergulhadas” em Unidades de Conservação, como o Parque Nacional da Tijuca. “Isso muda o entendimento dos valões, que começam a virar rios aos olhos do gestor e da política pública. As árvores com podas drásticas começam a virar conjuntos arbóreos a reflorestar. Eu preciso reflorestar favelas, não arborizar favelas. É diferente”, argumentou.

A secretária anunciou, ainda, que a prefeitura planeja a criação de 5 novas grandes florestas urbanas, “replicando a ideia do Parque Madureira, mas inserindo tecnologias de drenagem e macrodrenagem que a cidade precisa”. Tainá de Paula citou ainda um projeto a ser elaborado “daqui até o final do ano” chamado “Cada favela é uma floresta”, de urbanização de favelas com foco em ações ambientalmente sustentáveis, como as agroflorestas e outras soluções baseadas na natureza. “Eu radicalizei a meta do prefeito, ele está enlouquecido comigo. É preciso que a gente assuma o compromisso de erradicar a fome com as soluções de agroecologia até 2024”, projetou.

Sociedade civil no debate

Indo na mesma linha de Tainá de Paula, Walter Baethgen, pesquisador sênior da Columbia Climate School, destacou a importância dos sistemas alimentares sustentáveis, como a agroecologia, para a mitigação de problemas ambientais e de saúde. Alex Halliday, decano da escola de pesquisa climática da universidade americana, destacou que o Brasil pode ser um ator “muito importante” no combate à crise climática, que ele classificou como “a pior crise que você pode imaginar”.

A comunicadora indígena amazonense Samela Sateré Mawé denunciou os impactos das mudanças climáticas e das incursões do garimpo ilegal na saúde indígena. Segundo ela, o garimpo polui a água dos rios com mercúrio, o que traz doenças e até mesmo o medo de amamentar para as mães, que temem contaminar os filhos. Samela diz que o avanço do garimpo traz uma “milícia”, que não deixa a Secretaria de Saúde Indígena (SESAI) atender as populações.

Thiago Nascimento, da LabJaca, ONG da Favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, criticou as políticas públicas realizadas “de baixo para cima”, sem consulta às populações locais. Segundo ele, a colaboração entre o poder público e as comunidades é a melhor forma de realizar ações eficientes para a mitigação dos impactos climáticos.

Já Natalie Unterstell, presidente da ONG Instituto Talanoa, criticou os índices ainda altos de emissão de carbono, destacando a necessidade de cortá-los em áreas como a de transportes. Segundo ela, os eventos climáticos extremos já fizeram 1/3 dos municípios brasileiros decretarem estado de calamidade nos últimos 2 anos. “Nenhuma cidade se preparou para enfrentar essa realidade de clima muito mais quente e instável”, disse a ambientalista, citando o exemplo das chuvas recordes no litoral paulista. “Não adianta a gente se preparar para contar corpos”, disparou, “mas sim se preparar para fazer a adaptação”.

Segundo ela, “a gente tem que resolver a crise climática em uma geração: a nossa”. E para isso, Natalie diz que temos uma notícia boa e outra ruim. O Brasil tem condições de cortar 80% de suas emissões até 2030 “sem muito esforço”, aponta. O problema, segundo a ambientalista, é que o Brasil ainda é tímido na busca de financiamento internacional para projetos ambientais, comparando com países como a Indonésia, que “fazem a rapa no dinheiro”. Natalie afirma que o país precisa focar em metas mais ousadas e na mobilização de investimentos.

Além dos citados, outros pesquisadores e nomes ligados à Universidade de Columbia também tiveram espaço na programação do evento, como Wafaa El-Sadr, vice-presidente executiva da universidade; Thomas Trebat, diretor do Columbia Global Centers Rio; Rudi Rocha, professor da Fundação Getúlio Vargas; Murugi Ndirangu, diretora do Columbia Global Centers de Nairóbi, no Quênia; e Daniel Zarilli, assessor especial para Clima e Sustentabilidade de Columbia.

Problemas na organização

Público barrado no corredor do Museu. Foto: Gabriel Tussini

Mesmo com a reserva de ingressos realizada por meio do site oficial do evento, a presença de público parece ter sido maior do que a antecipada por seus organizadores. Ainda do lado de fora do Museu do Amanhã, funcionários falavam para quem aguardava na fila de credenciamento que “a entrada não é garantida mesmo com ingresso”, o que causou estranhamento geral. Já por volta das 15h (o evento estava previsto para começar às 14:30), uma longa fila se estendia pela Praça Mauá, em frente ao museu, e muita gente ficou mesmo de fora.

O auditório do Museu do Amanhã acabou ficando pequeno para a quantidade de pessoas presentes. A solução encontrada foi acomodar dezenas – no mínimo – de pessoas no corredor externo ao auditório, onde 3 aparelhos de TV concentravam grandes grupos de pessoas que tentavam, com muito esforço, ouvir o que era dito. A solução, improvisada ou então mal planejada, não teve grande sucesso: com o áudio muito baixo para um espaço tão cheio, foi difícil para os presentes ouvirem qualquer coisa. A prometida tradução simultânea para os convidados que falavam em inglês também não existiu para quem estava lá.

Com reclamações generalizadas – a reportagem ouviu até um desabafo (impublicável) quando a mediadora de uma das mesas fez menção ao “caos organizado” do evento –, o público que não conseguiu vaga no auditório foi aos poucos perdendo o interesse nos debates, já que não conseguiam acompanhá-los plenamente. Algumas pessoas chegaram a sair mais cedo do museu, outras voltaram suas atenções às mesas cheias de lanches e jarras de sucos naturais. Para elas, o coffee break acabou chegando mais cedo do que o previsto.

Foi apenas ao final do evento, quando parte do público do auditório começava a ir embora, que as pessoas do lado de fora conseguiram entrar. Após algumas horas se revezando nas poucas cadeiras colocadas próximas às TVs do corredor, o público que lá estava conseguiu, finalmente, acompanhar sem limitações o que era dito, mesmo que por pouco tempo.



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