A tirolesa da discórdia – ((o))eco


Em 2022, a empresa Cia. do Caminho Aéreo do Pão de Açúcar (CCAPA) anunciou a intenção de instalar uma tirolesa com quatro linhas paralelas entre os morros da Urca e do Pão de Açúcar. O brinquedo, se implantado, permitiria de 100 a 120 “decolagens” por hora, da manhã ao anoitecer, em que pessoas aos urros (gritar a plenos pulmões durante a descida parece ser inerente a essa atividade para muita gente) desceriam a 100 km/h durante cerca de um minuto os 755 m de cabos de aço do itinerário.

As objeções daqueles que são contrários ao projeto referem-se ao impacto que a gritaria teria sobre a tranquilidade dos moradores abaixo, sobre a fauna local e, sobretudo, sobre a experiência da visitação dos usuários tradicionais do Monumento Natural dos Morros da Urca e do Pão de Açúcar, unidade de conservação de proteção integral criada em 2006 e em cujo espaço aéreo o espetáculo se desenrolaria. Além disso, o aumento do fluxo de turistas criaria transtornos adicionais para os moradores da Urca, que já padecem com uma miríade de ônibus e vans de turismo estacionados por todo o bairro, e provavelmente tornaria muito mais frequentada a via de escalada mais fácil da montanha, o Costão, devido ao oferecimento de pacotes escalada/tirolesa, ampliando assim, significativamente, os processos erosivos que já podem ser observados por lá.

O Mona Pão de Açúcar foi criado com base em proposta elaborada em 1990 pelo Grupo Ação Ecológica (GAE), entidade ambientalista fundada por montanhistas cariocas no mesmo ano, proposta que, durante a primeira década de tramitação, sofreu forte oposição por parte da empresa. Apesar de a CCAPA há mais de um século se beneficiar financeiramente da exploração do teleférico, sem nunca ter praticado ações voluntárias relevantes na defesa ou recuperação do meio ambiente local, recentemente adotou o insidioso nome fantasia “Parque do Bondinho do Pão de Açúcar”, que induz as pessoas a correlacionarem a natureza em volta a alguma atitude da empresa, o que não corresponde à realidade.

Mensagem do Movimento Pão de Açúcar sem Tirolesa.

Mas os motivos de oposição à tirolesa vão muito além daqueles especificados acima. Isso porque ela nada mais é do que o pontapé inicial de uma proposta de ocupação massiva do topo dos dois morros com novas estruturas para compras e entretenimento. Estas são agressivas à paisagem e ao ambiente natural ao redor e magnetos de uma visitação alheia ao propósito original da concepção do teleférico, que é o de propiciar a contemplação da cidade do Rio de Janeiro a partir de ângulos privilegiados, com oferecimento de alguns serviços básicos de apoio como alimentação, sanitários e venda de souvenires. Em outras palavras, trata-se de um projeto megalomaníaco, que visa transformar o topo dos dois morros – áreas de preservação permanente, conforme o Código Florestal de 1965! – em um hub de entretenimento, transformando-os em um misto de parque de diversões (tirolesa), casa de espetáculos (shows e festas barulhentos) e shopping center.

Ora, aquelas montanhas são bens públicos, patrimônio de toda a população da cidade, do estado e do Brasil, e não é correto que uma empresa privada se aproprie deles indefinidamente, com expansão contínua de suas instalações e atividades em detrimento dos demais usuários do Mona, do sossego dos moradores abaixo, da fauna e flora da unidade de conservação pública e da própria exuberância da paisagem natural não-antropizada, que levou o Rio a ser considerado Patrimônio Mundial pela Unesco em 2012, na categoria de Paisagem Cultural Urbana.

A CCAPA tem um longo histórico de tentativas de intervenção adicionais permanentes nos dois morros, na mata entre eles e até nos vizinhos Morro da Babilônia e Morro do Leme, esta só detida com a aprovação de uma lei específica pela Câmara de Vereadores do Rio em 2015. Essas investidas foram relacionadas pelo GAE em uma ajuda à memória, e a tirolesa e a nova ocupação proposta para Pão de Açúcar e Morro da Urca nada mais são do que a continuidade desse processo perverso. Por essa razão, entendemos que chegou a hora de haver uma ampla discussão com a sociedade carioca sobre os limites conceituais dessa ocupação e, até, sobre o porquê de a família detentora do seu controle acionário dispor daquele espaço como uma espécie de capitania hereditária perpétua.

A repulsa de diversos setores da sociedade às novas propostas da empresa levou à criação de um movimento espontâneo denominado Pão de Açúcar sem Tirolesa, ao qual o GAE logo se uniu. A despeito do nome, o movimento combate não apenas a tirolesa, mas todas as novas intervenções pretendidas. A primeira delas a vir a lume, por sinal, prevista para o topo do Pão de Açúcar, de tão grotesca foi logo apelidada de Castelo dos Horrores.

O Castelo dos Horrores, ou como ficaria o cume do Pão de Açúcar de acordo com a CCAPA. Imagem: Reprodução da internet

É perfeitamente legítimo que a empresa queira expandir e diversificar os seus negócios, porém não em espaços cuja ocupação já é excessiva e não comportam um aumento contínuo de visitação, ainda mais para propósitos completamente alheios ao de contemplação da paisagem, que se vê assim rebaixada a mero diferencial mercadológico frente a outros empreendimentos semelhantes.

Uma única entidade saiu publicamente em defesa da tirolesa do Pão de Açúcar: a Associação Carioca de Turismo de Aventura (Acta), cujo presidente, Fabio Nascimento, aplaudiu com entusiasmo a apresentação feita pela CCAPA no conselho consultivo do Mona Pão de Açúcar e escreveu artigo em O Eco tecendo rasgados elogios ao projeto, com destaque para a geração de empregos prometida. A vida não está fácil para ninguém, mas todo empreendimento impactante ao meio ambiente e à vizinhança sempre se apresenta como imprescindível pela mesma razão, daí que as belezas naturais do Rio não podem ser feitas reféns dessa chantagem recorrente. Além disso, houve uma confusão entre a verdadeira natureza da tirolesa do Pão de Açúcar e aquela das atividades que a Acta representa. Vamos ver por quê.

Todos os dicionários nos ensinam que a palavra “aventura” implica na existência de dois componentes fundamentais, mesmo que em doses modestas: incerteza e risco. Por essa razão, a excelente definição oficial para “esportes de aventura”, constante da Resolução nº 18/2007 do Ministério do Esporte, diz que são atividades vivenciadas em interação com a natureza, a partir de sensações e de emoções, sob condições de incerteza em relação ao meio e de risco calculado. Turismo de aventura, então, nada mais é do que a prática desses esportes (caminhada, escalada, voo livre, mergulho, canoagem etc.) com alguma forma de intermediação comercial, percepção corroborada pela própria definição oficial de “turismo de aventura” dada pelo Ministério do Turismo: turismo de aventura compreende os movimentos turísticos decorrentes da prática de atividades de aventura de caráter recreativo e não-competitivo. Definições como a da ABNT e outras seguem na mesma direção.

Ocorre que em uma tirolesa de caráter industrial como a anunciada para o Pão de Açúcar encontram-se inteiramente ausentes os componentes de incerteza e risco que a qualificariam como atividade de aventura, esporte ou turismo. Há nela, por outro lado, completa analogia com os brinquedos mais desafiadores dos parques de diversões, como a montanha-russa ou as torres de queda livre, onde não faltam sensações e emoções fortes, mas inexistem incerteza e risco para os clientes, salvo por falha humana ou de equipamento. Portanto, colocar um guia de escalada, instrutor de mergulho ou de voo livre no mesmo balaio dos operadores da montanha-russa ou da roda gigante desmerece os verdadeiros profissionais da aventura. E o fato da tirolesa usar alguns equipamentos de escalada em nada modifica a sua condição de mero entretenimento: o trem-fantasma também usa vagões que emulam as composições ferroviárias maiores e os carrinhos de bate-bate imitam os automóveis que circulam nas ruas.

Na cidade do Rio de Janeiro, o último grande embate entre sociedade civil e capital envolvendo o destino de áreas naturais girou em torno da trombeteada construção de um autódromo sobre a Floresta do Camboatá, no bairro de Deodoro, último remanescente significativo de mata ombrófila de baixada no município, de raro valor botânico conforme atestado pelos especialistas do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro. As primeiras páginas dos jornais de todo o país apresentaram imagens do empreendedor de mãos dadas com o então presidente da República, o então governador do Rio e o então prefeito da cidade dando como certo o tal autódromo. No entanto, graças à vigorosa reação de moradores, ambientalistas, artistas e pesquisadores, ali, hoje, há um refúgio de vida silvestre municipal. Antes, o Movimento Salvem o Leme já havia marcado outro golaço para a sociedade civil ao salvar os morros da Babilônia e do Leme da CCAPA.

Pois estamos confiantes que agora o desfecho será semelhante, devido à força da emocionante articulação, às pressas, de um amplo grupo de profissionais – advogados, arquitetos, comunicadores, ecologistas, escaladores e outros –, muito competente  e comprometido, para enfrentar com sucesso mais essa investida de empresários ambiciosos sobre as extraordinárias belezas naturais da Cidade Maravilhosa.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.



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