Produtora reabilita áreas degradadas com espécies nativas do Cerrado

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O baru (Dipteyx alata), fruto nativo do Cerrado brasileiro, está no centro de uma experiência piloto de reabilitação de pastagens degradadas, realizada com apoio do WWF-Brasil e da Tapestry Foundation, no município de Bonito, em Mato Grosso do Sul. A participante dessa iniciativa é a chácara Boa Vida, localizada no assentamento Santa Lúcia, onde recentemente foram plantadas mais de 500 mudas de baruzeiro, reforçando uma tendência de mercado em que a produtividade é intensificada sem que a vegetação precise ser derrubada.

A reabilitação de áreas degradadas é uma prática para recuperar e devolver a produtividade de paisagens naturais que foram convertidas principalmente para atividades agropecuárias e, dessa forma, ficaram improdutivas. Hoje, é considerada uma das principais soluções contra novos desmatamentos porque, além de aumentar o rendimento produtivo, também eleva os ganhos financeiros do produtor, sem precisar abrir novas áreas.

Dados do MapBiomas apontam que 53% do território brasileiro é composto por áreas de pastagens com algum sinal de degradação, com potencial de reabilitação e para expansão da produção brasileira.

Diversas técnicas podem ser usadas nessa reabilitação, entre elas a conversão de pastagens para a agricultura, a implementação de sistemas de Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF) e a recuperação com espécies nativas, como tem sido feito na chácara Boa Vida, da produtora Elida Cristina Martins.

Moradora da região há mais de 20 anos e referência de protagonismo feminino no setor, ela conta que seus ganhos aumentaram consideravelmente ao manter o gado em um hectare de pastagem com as árvores do baru. “O gado fica com o pelo mais bonito e, em períodos de geadas, não é atingido porque está protegido pelas árvores. Os animais ficam melhor quando criados na sombra, pois não sofrem tanto com a seca, e se alimentam bem”, diz. Além de tornar a pecuária mais lucrativa, a produtora ainda enxergou outra oportunidade: a comercialização do baru. Atualmente, ela vende, em média, 50 quilos por mês, por R$ 90 a R$ 100 o quilo.

O baruzeiro pode ultrapassar 20 metros de altura e seu fruto, que é um dos protagonistas da sociobiodiversidade do Cerrado, tem diversos usos, entre eles a produção de alimentos, cosméticos e medicamentos. A castanha de baru, por exemplo, é considerada um superalimento e uma iguaria com grande potencial comercial, inclusive para exportação, tanto quanto a castanha-do-Brasil.

Diversidade de espécies do Cerrado

O plantio na chácara Boa Vida foi realizado no final de 2022 e utilizou duas técnicas de restauração distintas, o plantio de mudas e semeadura direta, a chamada muvuca de sementes. A proposta dessa ação, que tem o apoio do WWF-Brasil, é torná-la uma unidade demonstrativa para a realização de avaliações e monitoramento de longo prazo, analisando o desenvolvimento das árvores, o nível de produtividade das pastagens e do baru, os custos e os benefícios econômicos, ambientais e sociais para a região. Para que esse tipo de experiência possa ser replicada em outros lugares do país.

Baru – Foto: Divulgação

Após o preparo do solo, as mudas e sementes de baru foram dispostas em linhas no pasto degradado e regadas com hidrogel, um gel específico que as mantêm hidratadas por mais tempo porque retém a água usada durante o plantio. É um produto que auxilia no desenvolvimento das mudas, principalmente em locais com clima como o Cerrado, que passa por grandes períodos de seca.

Nessas mesmas linhas, foram lançadas as muvucas, técnica que usa uma mistura de sementes de espécies variadas, que futuramente fornecerão sombra e outros recursos que facilitarão o crescimento do baruzeiro. Além disso, as espécies incluídas na muvuca também podem ser usadas para alimentação e comercialização.  Na mistura ainda foram adicionadas espécies que servirão de isca para formigas e outros insetos, assim elas não destruirão as espécies de interesse econômico, diminuindo a necessidade de uso de agrotóxico.

Elida Cristina destaca que trabalhar com essa diversidade de espécies é mais lucrativo. “Eu ganho muito mais dinheiro misturando todas essas plantas do que em um hectare de uma única cultura. Temos muito mais lucro plantando do que desmatando”, frisa. As muvucas do plantio foram compostas por espécies nativas do Cerrado e de uso agronômico, como jatobá, araticum, milho, girassol, feijão, urucum e gergelim.

A produtora lembra que quando assumiu propriedade, que soma 12 hectares, a área estava toda degradada. “Quando chegamos aqui não tinha nenhuma árvore”, afirma. Hoje, mais de 80% da chácara está reabilitada, entre pastagens, sistemas IFP (integração pecuária-floresta) e sistemas agroflorestais. “Quando recuperamos, não estamos plantando apenas árvores, estamos plantando alimentos, ar puro e água”, acrescenta.

Novos modelos e experiências

Investir na conservação da natureza, como tem feito Elida Cristina, é fundamental para o combate à crise climática. “Esses novos modelos e experiências são importantíssimos para a reabilitação de pastagens. Quanto mais integramos cultivos dentro de uma área, mais riqueza temos naquele ecossistema, mesmo que seja um ambiente de agricultura ou pecuária”, salienta Laís Cunha, analista de Conservação do WWF-Brasil. “O Brasil já tem áreas abertas o suficiente para produzir até 2050 sem derrubar nenhuma árvore”.

“A integração de atividades econômicas como a pastagem e restauração produtiva, com espécies comercializáveis, como o baru, amplia a biodiversidade e valoriza a cultura local, além de gerar renda extra para o produtor”, destaca Veronica Maioli, especialista em Conservação e Restauração do WWF-Brasil. “Com o modelo implementado na chácara Boa Vida, esperamos demonstrar na prática que esses modelos são especialmente interessantes para pequenos produtores rurais, que têm uma área menor para o cultivo, mas também atrair médios e grandes produtores, pela sua rentabilidade e sustentabilidade, além de ampliar o fornecimento de serviços ecossistêmicos para toda a região, como qualidade da água e conservação do solo”.

Segundo o MapBiomas (2020), dos mais de 154 milhões de hectares de pastagens no Brasil, 14,3% estão com níveis severos de degradação e 38% estão com níveis de degradação considerados intermediários. Falando do Cerrado, em especial, os dados revelam que são mais de 48 milhões de hectares de pastagens no bioma e destes, mais de 57% estão com algum nível de degradação.
Conheça a série de estudos sobre reabilitação de pastagens.

Cerrado – Foto: André Dib

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