Por que morrem tantos animais na BR-262?

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((o))eco percorreu o trecho mais perigoso para a fauna da BR-262, registrou  animais mortos e buscou explicações e soluções para o problema que há décadas dizima a biodiversidade nativa no Mato Grosso do Sul.

Primeira semana de junho. Rumo à uma reportagem sobre efeitos da hidrovia Paraguai-Paraná, do desmatamento e da seca no Pantanal, dirigi pelos 430 km da BR-262 entre Campo Grande e Corumbá. Ida e volta.

Mesmo sem rigor científico, contei mais de 30 animais mortos. A grande maioria estava irreconhecível. Dois eram tamanduás-bandeira, espécie vulnerável à extinção e uma das maiores vítimas de veículos na BR-262. 

O que vi é uma fração do registrado por especialistas. O Instituto de Conservação de Animais Silvestres (Icas) contou 7.942 animais mortos em cerca de 500 km da rodovia entre a ponte no rio Paraguai e Água Clara (MS), de 2017 a 2020.

“O número é subestimado. Muitos animais são atingidos e morrem longe das vias. Outros são retirados por pessoas ou devorados por espécies carniceiras”, descreve Débora Yogui, médica veterinária e pesquisadora do Icas.

O Instituto Homem Pantaneiro (IHP) identificou 19 onças-pintadas mortas por atropelamentos entre 2016 e abril de 2023 nos cerca de 200 km da BR-262 entre Miranda e Corumbá.

Já o coordenador do Centro Brasileiro de Estudos de Ecologia de Estradas (CBEE), Alex Bager, percorreu 30 mil km de rodovias para verificar seus impactos na biodiversidade. A expedição nacional foi de 2018 a 2019.

Os 750 km de Três Lagoas a Corumbá da BR-262 foram o segundo trecho mais mortal para a fauna nativa. O topo do pódio foi de 200 km da BR-471 no Rio Grande do Sul, parte deles junto à Estação Ecológica do Taim.

Um raro cachorro-vinagre (Speothos venaticus) morto por atropelamento na BR262. Foto: Projeto Bandeiras e Rodovias/Correio do Estado/Divulgação

Pecado original

A BR-262 foi inaugurada em 1969 e cruza o país de leste a oeste, do Espírito Santo ao Mato Grosso do Sul. É uma das autopistas mais perigosas do Brasil, para pessoas e fauna silvestre. 

“É uma das inúmeras rodovias construídas sem prever estruturas para reduzir acidentes com animais”, constata a pesquisadora Débora Yogui, do Icas e do projeto Bandeiras e Rodovias.

O licenciamento ambiental, que poderia obrigar medidas para conter as colisões rodoviárias com animais, foi introduzido por lei no país 12 anos depois, em 1981.

Na prática, ações contra atropelamentos de fauna ainda hoje são uma exceção em obras de infraestrutura. Um projeto legislativo para melhor proteger a biodiversidade em rodovias e ferrovias tramita desde 2015 no Congresso.

Ao longo da BR-262, a vegetação na faixa de domínio e as valas que acumulam água por certo tempo na estiagem atraem animais para perto da rodovia. Imagem: GoogleEarth/Aldem Bourscheit

Falhas construtivas atraem animais à BR-262, como manter a vegetação ao longo das laterais da pista e as valas alagáveis de onde foi retirada terra para elevar a rodovia, driblar inundações e manter o trânsito o ano inteiro.  

“Não houve cuidado em estabelecer estruturas que evitassem colisões com a fauna”, diz Walfrido Tomas, pesquisador da Embrapa Pantanal e doutor em Ecologia pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). 

Para minimizar os prejuízos, o governo federal implantou telas metálicas, redutores de velocidade (radares) e sinalização na BR-262. Contudo, as medidas são pontuais e não reduziram em larga escala a matança de animais. 

“Essas falhas ampliam as chances de colisões com animais, que podem cruzar a BR-262 a qualquer momento. Nesses casos, desviar rapidamente pode ser perigoso para os motoristas”, lembra Débora Yogui.

As telas metálicas cobrem apenas 3% da extensão da rodovia – trechos perto de pontes de Anastácio a Corumbá –, são baixas e têm vários pontos rompidos. Isso facilita o acesso e dificulta a saída de animais da pista. 

“Investiram num telamento de baixíssima qualidade que foi rapidamente degradado e rompido. Isso pode ampliar e não reduzir os impactos”, pontua Bager, do CBEE e professor na Universidade Federal de Lavras (UFLA).

Além de inúmeros veículos, cerca de 400 carretas diárias com minério de ferro seguem pela BR-262 de Corumbá a Três Lagoas, na divisa com São Paulo. O fluxo pode cair com a ferrovia Malha Oeste, ainda sem edital publicado.

“Se a hidrovia Paraguai-Paraná for interrompida por secas extremas, a BR-262 será uma alternativa imediata e o tráfego pesado e as colisões com espécies da fauna aumentarão”, lembra Tomas, da Embrapa Pantanal.

Biodiversidade dilapidada

Do monitoramento de 2017 a 2020 do Instituto de Conservação de Animais Silvestres (Icas), 6.650 (83,7%) animais morreram no sentido oeste da BR-262, entre Campo Grande e Corumbá, passando por Cerrado e Pantanal. 

“São regiões ainda ricas em fauna”, lembra a médica veterinária Débora Yogui. Mas a farta vida selvagem encolhe sob pressão da rodovia. 

No período avaliado pela ong, 874 jacarés, 605 cachorros-do-mato, 255 tamanduás, 30 antas, além de queixadas, macacos-prego e variadas outras espécies sucumbiram.

Outros animais raros ou em perigo de desaparecer também, como gato-mourisco, raposinha-do-campo, tatu-canastra e até cachorro-vinagre. “Algumas [espécies] só vi mortas, nunca vivas na natureza”, lamenta Yogui.

Em agosto de 2019, dois cachorros-vinagre morreram atropelados na BR-262, entre Aquidauana e Miranda. A espécie rara está em risco de extinção no país, conforme o Ministério do Meio Ambiente.

Acima e abaixo, as espécies mais atropeladas na BR262, conforme levantamento do Icas. Artes: Gabriela Güllich.

Artifícios salvadores

Diante do morticínio de animais na BR-262 e outras rodovias federais e estaduais, ações efetivas e urgentes são necessárias, prega Alex Bager, coordenador do CBEE.

“Soluções reais dependem de estratégias claras de mitigação, o que ainda não vimos nas políticas públicas [dos governos federal e estadual]”, ressalta o pesquisador.

Para Débora Yogui, do Icas, planos para conter colisões dependem

de mais dados confiáveis sobre fauna atropelada, oriundos de monitoramento permanente, e devem ser aplicados em rodovias novas e existentes no país.

“Trechos a ser pavimentados já devem prever como serão reduzidas as colisões, pois elas causam muitas vítimas [pessoas e animais] e danos materiais”, ressalta a especialista.

Pois, sugestões do pesquisador da Embrapa Pantanal Walfrido Tomas podem salvar animais, dificultando seu o acesso à autopista e facilitando o cruzamento por passagens subterrâneas, mesmo nas cheias. 

Alterar os gabiões (suportes da via) em pontos estratégicos poderia dificultar o acesso dos animais à BR-262; ao mesmo tempo, poderia embarreirar espécimes fugindo de incêndios. Arte: Gabriela Güllich.

As recomendações pesam até a maior movimentação de animais buscando água nas secas ou afugentados por incêndios, como os que torraram no bioma de 2019 a 2021.  

“Isso direciona mais animais à pista aumentando a mortalidade caso escapes apropriados não estejam implementados”, arremata Tomas.

Órgãos como Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) debatem um plano para reduzir as mortes de animais em quase 300 km da BR-262, de Anastácio a Corumbá.


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