O limite da sobrevivência de um sapinho admirável


Restrito à parte de um rio no Rio Grande do Sul, um sapinho afastou de forma inédita o projeto de uma hidrelétrica, mas pode sucumbir devido ao avanço do agronegócio e à crise climática. Pesquisadores, ONGs e comunidade uniram forças para aumentar suas chances de sobrevivência.

Reconhecido como espécie única apenas em 2006, o sapinho-admirável-de-barriga-vermelha (Melanophryniscus admirabilis) vive apenas num trecho de no máximo 2 km de extensão no rio Forqueta, nos municípios de Arvorezinha e Soledade, numa área de Mata Atlântica preservada da Serra gaúcha. 

Sua população é estimada entre mil e 2 mil indivíduos e não está abrigada numa unidade de conservação. A espécie pode ter ocupado outras áreas no passado ou viver em pontos diferentes do país. Entretanto, pesquisadores até agora não a encontraram em nenhum outro local. Não é por acaso. 

Os municípios serranos gaúchos de Soledade e Arvorezinha são a única morada conhecida do sapinho-admirável. Mapa: Gabriela Güllich

Sua morada serrana tem as condições ecológicas e de clima ajustadas à sua reprodução e alimentação. O sapinho desova apenas em poças deixadas pelas chuvas e cheias no leito de pedra do rio Forqueta. Com temperatura ideal, ali os girinos nascem e se desenvolvem.

“Com uma ocorrência tão pequena, a espécie é ainda mais suscetível a riscos de extinção”, ressalta Michelle Abadie de Vasconcellos, doutora em Ecologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bolsista do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios (RAN). 

A cientista também integra um grupo com instituições públicas, privadas, de ensino e ongs dedicado há mais de uma década a pesquisas e ações para manter a espécie. O time monitora anualmente as condições do animal e de seu habitat.

Listado como em perigo crítico de extinção desde 2014, o sapinho interrompeu o projeto de uma pequena central hidrelétrica (PCH). A barragem mudaria o fluxo das águas do rio Forqueta e poderia dar cabo da espécie, de uma só vez ou aos poucos, complicando sua reprodução.

“A obra provavelmente o extinguiria, já que o sapinho depende muito do regime natural do rio para sobreviver”, reforça Alexandre Krob, coordenador Técnico e de Políticas Públicas do Instituto Curicaca. Foi a primeira vez na história brasileira que um anfíbio barrou uma obra desse tipo.

O sapinho-admirável na capa da edição de 2018 do Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção. Imagem: Divulgação/ICMBio

Denúncias de ongs e cientistas ao Ministério Público fizeram o governo gaúcho cancelar as licenças da PCH Perau de Janeiro, em 2010. O caso melhorou as diretrizes estaduais para o licenciamento de hidrelétricas na bacia dos rios Taquari e Antas, da qual faz parte o rio Forqueta.

Riscos vizinhos

No entorno da morada do anfíbio predominam pequenas propriedades rurais com boas condições ecológicas. Todavia, o desmate e culturas mantidas com agrotóxicos, como o fumo e sobretudo a soja, se expandem nos municípios de Arvorezinha e Soledade, mostra a plataforma MapBiomas.

Sua área somada de florestas e campos naturais caiu de 59.750 ha para 49.410 ha de 1985 a 2021 – uma redução de 17%. Entretanto, no período a parcela com soja passou de 3 mil ha para 70 mil ha, um salto de 2.200%. As lavouras substituem sobretudo pastos para gado e cultivos como o da erva-mate.

Alertas para desmatamento monitorados pelo Instituto Curicaca apontam que, de 2019 a 2022, ao menos 70 hectares foram derrubados na área de ocorrência do raro anfíbio, de forma ilegal ou com autorizações municipais.

Solos sem vegetação podem levar terra e contaminantes ao rio Forqueta, dando cabo do sapinho-admirável. “Até araucárias [igualmente ameaçadas de extinção] são cortadas”, pontua Krob, do Curicaca. 

A deriva aérea ou a contaminação direta do rio por agrotóxicos de lavouras de fumo e soja seria fatal para a única população do anfíbio. Os girinos são ainda mais sensíveis a esses venenos e outros químicos. Outro risco são alterações do clima, do nível local ao global. “Mudanças mais frequentes ou mais potentes de temperatura e chuvas podem inviabilizar a vida da espécie”, explica Michelle Vasconcelos, da UFRGS. Complicando o cenário, até agora não foi localizada nenhuma outra área com condições naturais similares para um possível deslocamento da espécie.

A área habitada pela espécie (acima) e uma parcela desmatada (abaixo) próxima ao rio A área habitada pela espécie (acima) e uma parcela desmatada (abaixo) próxima ao rio Forqueta. Fotos: Pedro Peloso / www.projetodots.org

Caminho do meio

Atentos ao crescimento descontrolado do agronegócio convencional e ao clima mutante, pesquisadores e ongs apostam em cultivos mais amigáveis, como o da erva-mate junto à vegetação natural preservada, o ecoturismo e a educação ambiental.

Conforme Alexandre Krob, do Instituto Curicaca, cresce a cada ano o número de famílias da região interessadas em deixar uma produção em lavouras com agrotóxicos e esquemas econômicos engessados por grandes empresas de insumos agrícolas. 

“Ampliar a produção de erva-mate em sistemas agroflorestais valoriza a Mata Atlântica em pé e ajuda a conservar o sapinho-admirável”, destaca o ativista.

Gerenciando uma área arrendada com camping e cabanas junto à morada do sapinho, Graziela Siva conta que o turismo cresceu com a inauguração do Cristo Protetor de Encantado, a 80 km do Perau de Janeiro. A estátua de 43,5 metros atrai romeiros e curiosos desde abril do ano passado. 

“Grupos visitando a região passam também por aqui. Algumas pessoas nos procuram já sabendo do sapinho, outras descobrem no local. Estudantes e pesquisadores vêm até do Exterior interessados na espécie”, conta Siva.

Isso trouxe mais regras e sinalização para evitar danos ao animal. Trilhas foram alteradas para evitar o pisoteio em áreas de reprodução. “Não é possível estimular a observação do anfíbio com uma população tão restrita”, avalia Krob, do Instituto Curicaca.

Parte da sinalização no Perau de Janeiro pedindo cuidados com o sapinho-admirável. Foto: Graziela Siva

Conforme Michelle Vasconcelos, da UFRGS, há casos isolados de pessoas que recolhem exemplares dos belos sapinhos para tentar mantê-los como animais de estimação ou para soltá-los em poças e lagoas de outros municípios. 

Ao mesmo tempo, vizinhos da morada da espécie ajudam a gerar mais e melhores informações sobre seu comportamento. Isso converge em artigos científicos e ações para manter o sapinho. “Isso ajuda as pessoas a entender e ter orgulho de uma espécie tão exclusiva”, diz a pesquisadora.

Pintas e parentes 

Adultos do sapinho da serra gaúcha medem até 4 cm. Mesmo assim, é um dos maiores entre seus parentes no Brasil e países vizinhos, como Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai. Cada “admirável” é identificado pelos distintos padrões de pintas na barriga, como se fossem suas impressões digitais.

“As cerca de 30 espécies de Melanophryniscus têm comportamentos e características parecidas. São pequenas, restritas a locais muito específicos e com reprodução ligada a condições ambientais”, explica Michelle Abadie de Vasconcellos, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 

Padrões de pintas (acima) ajudam a identificar indivíduos do sapinho-admirável. Abaixo, alguns de seus parentes nacionais e de países vizinhos. Fotos: Márcio Borges-Martins e Michelle Abadie





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