Bichos, plantas e histórias que não contaram para você | Episódio 6 | Vida de Onça

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Transcrição

Bichos, Plantas e Histórias que não contaram para você

Episódio 06 | Vida de onça

Duda Menegassi: O Brasil não tem um animal oficial que represente o país. Em 2002, deram o título de ave-símbolo ao sabiá-laranjeira. Ele mesmo, aquele passarinho cantador imortalizado por Gonçalves Dias na Canção do Exílio.

“Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.”

Mas, com todo respeito ao sabiá, não sei se alguém lembra dele quando se pensa no maior símbolo da fauna brasileira. Talvez tenha um outro bicho mais… chamativo.

Rafael Ferreira: A onça, sim, está no imaginário popular de maneira mais contundente, digamos. A gente ouviu há pouco a Juma se transformando em onça, aquela da novela Pantanal, da Rede Globo. Mas todo mundo que fica bravo, no Brasil, vira onça.

Ela está na estampa de um vestido, em um poema de Drummond. Tem onça na canção de Alceu Valença e no enredo da Grande Rio do carnaval de 2024. Tem onça na nota de cinquenta reais. Mas, provavelmente, quem melhor entendeu a onça foi Guimarães Rosa.

“Cê tem medo? 

Mecê, então, não pode ser onça. 

Cê não pode entender onça. 

Cê pode?”

Guimarães Rosa imortalizou não só o animal, mas também uma “língua de onça”. No conto “Meu tio, o Iauaretê”, vemos que a ideia da novela Pantanal é antiga. Tonho Beró caçava onças.

“Eu cacei onça, demais. Sou muito caçador de onça. Vim pra aqui pra caçar onça, só pra mor de caçar onça.”

Mas agora vira onça.

“Agora ela tá dormindo, no mato fechado.”

Ele fala da onça pintada, que é um personagem comum no imaginário popular, mas ele fala também da Suçuarana.

Pois é, a pintada não é a única. E é desse outro felino, a onça-parda ou suçuarana, que nós vamos falar nesse episódio. Afinal, essas são as histórias que não contaram pra você.

“Onça é bonito. Mecê já viu?”

Pois cada vez mais se vê onça-parda. O problema é que não é na natureza. Cada vez mais se vê onça onde não se via antes.

Duda Menegassi: Eu e Rafael viemos aqui para Barra de Guaratiba, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, para conhecer a propriedade em que morou o maior paisagista do Brasil, Roberto Burle Marx, um local onde a cultura e a natureza se encontram. Esse local foi criado com o objetivo de preservar, pesquisar e divulgar a vida e obra desse artista realmente apaixonado pela natureza. O sítio Burle Marx abrange uma área de 405 mil metros quadrados de vegetação nativa de Mata Atlântica, reunindo um dos mais importantes acervos de plantas vivas do mundo. São mais de 3.500 espécies de plantas tropicais e subtropicais, em viveiros e jardins, que convivem em harmonia com casas, edificações, lagos, jardins, coleções de arte e até uma biblioteca. 

Quando adquiriu o primeiro terreno, em 1949, Roberto e o irmão, Guilherme, buscavam um espaço onde pudessem preservar espécies nativas recém-chegadas de coletas botânicas de diversas regiões do país. Aliás, uma das grandes preocupações de Burle Marx era com a constante destruição dos ecossistemas, a derrubada de florestas e áreas de cobertura vegetal e com a transformação da paisagem brasileira.

A própria doação do Sítio ao Estado brasileiro mostra a dedicação de Burle Marx à natureza. A condição para a doação, feita ainda em vida e concretizada depois da morte do paisagista, em 1994, era que o local fosse um espaço dedicado à pesquisa, com enfoque na preservação ambiental.

Áudio Burle Marx: Não se pode hoje em dia, imaginar uma cidade sem áreas verdes.

Rafael Ferreira: Você notou, pela abertura, que esse não é um episódio sobre Burle Marx, ou sobre o sítio dele. Mas a gente já chega lá.

Acontece que a conservação da natureza neste local — e no corredor verde que ele forma com as unidades de conservação que ficam aqui ao lado, principalmente o Parque Estadual da Pedra Branca — deu pra gente a oportunidade de contar para você algumas das histórias sobre a verdadeira “estrela” desse episódio.

Em julho de 2020, por acaso, as câmeras de segurança do Sítio fizeram um registro bem raro por aqui: elas gravaram uma onça-parda enquanto ela encarava o portão de entrada da propriedade. Uma suçuarana.

Áudio: Peraí! olha o tamanho da onça

Duda Menegassi: Eu e o Rafa passamos por esse portão, quando a gente chegou aqui para nossa visita. 

Rafael Ferreira: Pensar que, de alguma forma, uma onça veio caminhando pelo meio das ruas…

Duda Menegassi: Por onde a gente veio de carro! 

Rafael Ferreira: …é um pouco complicado. Mas, daqui a pouco, a gente vai trazer um especialista que vai dar uma ideia de qual foi esse caminho feito e como é que isso foi possível.

Duda Menegassi: Fazia mais de 80 anos que não tinha um registro desses na cidade do Rio de Janeiro. Mas o ponto central desse episódio é, na verdade, um alerta. As onças estão perdendo espaço. A destruição do seu habitat, causada pelo crescimento urbano desordenado e pelo aumento das atividades humanas, diminui a disponibilidade de presas. Pressionadas, as onças, tanto pardas quanto pintadas, muitas vezes são obrigadas a entrar no domínio de outro predador de topo: a espécie humana.

Os conflitos e desafios que emergem dessa convivência na maioria das vezes nada harmoniosa são pontos críticos para garantir a conservação desses animais. Diferente de Beró, que deixou de ser caçador para virar onça, e do registro tranquilo da onça na frente do Burle Marx, outras histórias recentes mostram que, infelizmente, o medo e a violência ainda protagonizam essa relação.

Rafael Ferreira: Você está ouvindo “Bichos, plantas e histórias que não contaram para você”, um podcast do site ((o))eco de jornalismo ambiental. 

Nessa temporada, em seis episódios, a gente traz alguns dos principais temas da   conservação da natureza aqui no Brasil.

Eu sou o Rafael Ferreira.

Duda Menegassi: Eu sou a Duda Menegassi.

No episódio de hoje, “Vida de Onça”.

Rafael Ferreira: No livro ‘O Sertão Carioca’, publicado em 1936, Armando Magalhães Corrêa descreveu as últimas ocorrências conhecidas da suçuarana na cidade do Rio de Janeiro.

[Para que não haja confusão. A gente falou lá atrás que suçuarana é um dos nomes populares da onça-parda no Brasil. Mas há outros: puma, onça-vermelha, leão-baio, leão-da-montanha, mossoroca, bodera. Todos são nomes que descrevem o mesmo animal. Em cada lugar, ela ganha um apelido diferente. Voltemos a ela.]

Pois oitenta e quatro anos depois do relato de Magalhães Corrêa, numa noite de sexta-feira, a câmera de vigilância do Sítio Burle Marx flagrou a onça-parda a caminhar na frente da cerca que protege a propriedade. Foi o primeiro registro conhecido do felino na cidade desde a publicação do livro.

O sítio é vizinho ao Parque Estadual da Pedra Branca, uma grande área florestal de 12.500 hectares, o que aumenta as chances do felino ser, de fato, um animal silvestre. E não oriundo de alguma soltura irregular.

Duda Menegassi: Eu e Rafael tivemos oportunidade de passear um pouquinho aqui dentro do Burle Marx, e subir até a parte onde a fronteira da propriedade se encontra com a floresta, e se mistura com o Parque Estadual da Pedra Branca. Ouvimos aves, vimos beija-flores, borboletas…

Rafael Ferreira: Por sorte — ou não, depende de quem perguntar — a gente não viu nenhuma onça. 

Duda Menegassi: É. A gente não viu nenhuma onça-parda na nossa visita, mas a gente passou pelo portão onde ela foi flagrada. Que é o portão da entrada, o portão por onde todos os visitantes entram, na beira da estrada. E na imagem da câmera de segurança, a gente vê um grande felino de olhos brilhantes observando a cerca do sítio. 

Rafael Andrada: É um indivíduo que não vai sair de uma área que tem presas. De uma área estável para ele, com varas de porcos do mato, populações de pacas super estáveis para alimentação, presas em grande abundância para ela, água, esconderijos… Ela não ia sair de lá, se destacar sozinha, para vir para a Pedra Branca, [uma área] que está muito mais urbanizada, muito mais antropizada, a troco de nada. 

Então, durante a pandemia foi bem provável que a diminuição no fluxo de carros, de barulho na cidade, e de tudo mais, algum indivíduo tenha se desprendido. Se sentiu seguro para re-colonizar outras áreas.

Rafael Ferreira: Esse é o Rafael Andrada. O Rafael é guarda-parque do Inea, que é o órgão que administra os parques aqui no Rio de Janeiro. A gente foi encontrar com o Rafael, meu xará, para conversar um pouco sobre a situação das onças no estado do Rio de Janeiro e como essa onça veio parar aqui no Sítio. 

Rafael Andrada: Provavelmente ela atravessou a Avenida Brasil. Isso é bem provável. Ela pode ter atravessado por baixo, pela passagem do Siga, a única passagem subterrânea que tem, que “entra” pelo campo de tiro [na Estrada] de Gericinó. Atravessou para o outro lado ali, onde estão os campos de cavalo e tudo mais. Pelo rio — porque, se não, ela teria que atravessar a linha do trem. E de fragmento em fragmento, ela acabou parando aqui.

Eu acredito que hoje ela não esteja mais aqui. Entendeu? Se ela está na Pedra Branca, ela está na área mais restrita desse parque.

Duda Menegassi: A onça-parda é o segundo maior felino do Brasil e só fica atrás, claro, da onça-pintada. Ela tem um comprimento total que varia de um metro e meio a quase três metros, uma massa corporal de cerca de 70 kg quando adulta e pêlos que vão de marrom-acinzentada claro a marrom-avermelhado escuro.

É um animal que pode ser encontrado por todo o continente americano, do Canadá até a cordilheira do Andes. No Brasil, a suçuarana está distribuída por todos os biomas: Amazônia, Cerrado, Caatinga, Pantanal, Pampa e, aqui onde a gente está, a Mata Atlântica.

Jorge Antônio Lourenço Pontes: Quando você tem mais de 20 anos sem registro confirmado da espécie, ela pode ser considerada extinta numa localidade. E a onça-parda era. Tanto é que as listas oficiais e outros artigos [científicos] mais antigos já davam ela como extinta oficialmente. Mas um registro dela, havia mais de 80 anos que não tinha. Nada. Aí começaram a aparecer esses registros, o primeiro foi em 2007, uma pegada que eu achei em Guaratiba [na Reserva Biológica]. Depois, conversando com outros pesquisadores, vieram outros registros e, no ano passado, teve esse flagrante que pegaram ela lá no portão do Sítio Burle Marx com a câmera de segurança.

Duda Menegassi: Esse que você está ouvindo é o Jorge Pontes, biólogo, pesquisador e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro

Jorge Antônio Lourenço Pontes: A gente acredita nisso: que elas vieram de outras regiões, Tinguá… 

Duda Menegassi: Ou seja, provavelmente, a via de entrada foi a região serrana e de lá ela conseguiu, sabe se lá como, achar um caminho até o parque./

Jorge Antônio Lourenço Pontes: Por isso que a gente ressalta a importância desses fragmentos, ainda que dispersos, no meio urbano, como a Floresta do Camboatá. Então, a gente acredita que esses animais vieram, que eles se esgueiram — até atravessando ruas e avenidas de noite, de madrugada, com tempo chuvoso — de fragmento em fragmento. Uma praça daqui para ali, vai chegando e acaba atingindo, ou então, como é muito comum, ou por vales e rios, mesmo que poluídos, mas que são mais sossegados e às vezes têm alguma vegetação que encobre o animal. E assim chegaram em fragmentos maiores, como é o caso do Mendanha, que é todo isolado praticamente, e o Pedra Branca.

Rafael Ferreira: Apesar de ser avistada em lugares incomuns como a cidade do Rio, a onça-parda é considerada uma espécie vulnerável à extinção. As principais ameaças são a caça, a perda e fragmentação do habitat, a ampliação da malha rodoviária em todo o país, e os conflitos diretos com o bicho-homem. A onça é vítima da bala e do carro.

Duda Menegassi: Onças-pardas atropeladas em rodovias do país são uma constante. Essa onça que apareceu no Sítio Burle Marx deu uma tremenda sorte: porque ela entrou numa área urbana, passou por ruas, avenidas e estradas, e mesmo assim conseguiu chegar sã e salva.

Para dar uma noção do perigo, um estudo de 2022 avaliou os atropelamentos de onças-pardas no estado de São Paulo entre 2003 e 2021 e os números são alarmantes. Foram 64 atropelamentos e os animais morreram em 75 por cento dos casos.

Segundo estimativas do Centro Brasileiro de Ecologia de Estradas, todos os anos, 475 milhões de animais silvestres morrem vítimas de atropelamento. O número é esse mesmo, a gente não trocou mil por milhões, a gente não se confundiu. Por ano, 475 MILHÕES de animais morrem atropelados. Isso inclui onças, sapos, aves, tamanduás… são milhões de vidas animais interrompidas.

A região mais perigosa para um bicho atravessar a rua é, disparada, a Sudeste, que concentra 56% das mortes. Seguida da região Sul, com 29% dos atropelamentos, e Nordeste, com 9%. 

Rafael Ferreira: Em 2019, uma jovem onça-parda chamada Leôncio foi atropelada na região de Mercedes, no Paraná. Tinha pouco mais de um ano e meio de idade. Leôncio sofreu uma grande fratura no fêmur, teve um canino quebrado, vários cortes na face e o pior, um traumatismo na cabeça, provocando um edema cerebral que o deixou em coma por 15 dias.

Mas Leôncio teve aliados incansáveis. Ele foi levado para atendimento no Refúgio Bela Vista, da Itaipu, em Foz do Iguaçu. Passou por três cirurgias ao longo de um ano, inclusive para colocação de pinos e parafusos na pata quebrada.

A equipe do Refúgio trabalhou arduamente na recuperação desse animal por dois anos e três meses. Ficaram juntos dele até que estivesse em boa forma física.

Yara de Melo Barros: Então, depois que o Leôncio já estava fisicamente reabilitado, que ele estava recuperado dessas cirurgias todas, foi construído um recinto, em um ambiente natural, no corredor Santa Maria, para ele poder correr, subir em árvore, andar por ali e completar a sua reabilitação para ser solto, poder ter espaço para se exercitar. Antes da soltura foi feito então um processo de avaliação de saúde para ver como é que ele estava. Nesse meio tempo, nós, o Projeto Onças do Iguaçu, preparamos as comunidades que vivem perto dessa área de soltura para receber esse animal. Toda essa preparação da comunidade visou reduzir o medo das pessoas, aumentar o engajamento delas com Leôncio, com essa batalha que essa jovem onça enfrentou, e com isso aumentar a chance de sobrevivência do Leôncio.

Rafael Ferreira: Yara é doutora em zoologia, coordenadora do Projeto Onças do Iguaçu. Foi ela quem contou lá no ((o))eco, e conta aqui também, a história do Leôncio.

Yara de Melo Barros: Esse animal passou nesse recinto de habilitação, em campo, seis meses. Então, ao final de mais de dois anos, num período total de reabilitação, ele foi solto. 

Para todos nós foi um processo muito emocionante, ver uma onça que chegou praticamente morta ter a chance de uma nova vida. Ele foi solto com colar, tanto para o Projeto Onças do Iguaçu quanto para o Refúgio Biológico poderem acompanhá-lo. Então, depois de algumas incursões que o Leôncio fez em áreas próximas da cidade, ele conseguiu finalmente achar uma área no Lago da Itaipu, com comida farta, com proteção. A gente ficou bem feliz! Foram instaladas armadilhas fotográficas nessa região. Foi registrada comendo capivara, o que indica que o animal voltou a caçar na natureza. 

Infelizmente, depois de 40 dias, o colar mandou um sinal de mortalidade: parece que ele teve algum encontro com algum outro puma selvagem e acabou morrendo numa briga com a outra onça. 

Rafael Ferreira: Confrontos violentos entre onças não são raros de acontecer e às vezes acabam em morte. Infelizmente, confrontos com humanos também são frequentes e possivelmente muito mais letais.

A própria vida do jovem Leôncio mal tinha começado e já tinha sido marcada por um encontro violento com o bicho homem. As radiografias feitas no primeiro atendimento revelaram que a onça tinha chumbinho espalhado pelo corpo. Três na face. 

Duda Menegassi: Isso me lembra outra história que mostra como esse é um problema recorrente. Essa aconteceu no Ceará, em abril de 2022.

Assim como Leôncio, tratava-se de um macho jovem com menos de dois anos. 

Karine Rocha Montenegro: Quem entrou em contato com a gente foram os Bombeiros e a Polícia Militar Ambiental, que foi quem primeiro socorreu a onça, lá na cidade onde ela foi atropelada, em Martinópolis. De imediato, eles levaram a onça, que estava sangrando, para atendimento veterinário mais próximo à localidade que, no caso, era uma universidade lá de Sobral. Eles conseguiram, rapidamente, fazer uma primeira cirurgia — precisavam ser colocados pinos nas patas. A equipe esperou uns 30 dias, mais ou menos, e dia 30 de abril foi feita a repetição de exames nela, com sedação. E lá foi detectado que um dos pinos na pata não “segurou”: a pata já estava muito fragmentada e acabou que foi necessário marcar uma segunda cirurgia.

Duda Menegassi: Essa é a Karine Rocha Montenegro, advogada e diretora do Instituto Pró-Silvestre.

Karine Rocha Montenegro: A gente fez uma campanha de arrecadação de recursos para cirurgia. Foi uma cirurgia que foi bem sucedida por um lado porque a gente, pelo menos, conseguiu com que a onça sobrevivesse ainda que com três patas. Então, deu certo. Mas, por outro lado, é lamentável o fato de o alvejamento, mais o atropelamento, ter desencadeado na perda da pata de um felino tão raro para nossa fauna — pelo menos aqui do estado do Ceará. Ela é um animal que está na Lista Vermelha de ameaça à extinção.

É muito triste. É uma tristeza muito grande quando a gente se depara com esse tipo de realidade em que o ser humano consegue ter esse prazer em matar. 

Duda Menegassi: A onça atropelada estava há um mês sob cuidado de veterinários do Instituto Pró Silvestre, quando os exames verificaram que o bicho tinha sofrido mais de 30 tiros de chumbinho, apenas algumas semanas antes do acidente.

Karine Rocha Montenegro: Infelizmente é uma prática que nos interiores do nosso estado vem acontecendo muito. Mas eu aposto na educação ambiental para mudar isso. Claro que a repressão também tem que acontecer. A repressão dos órgãos de segurança pública e dos órgãos ambientais. Mas a educação ambiental, ela tem que andar em paralelo.

Quanto ao destino aqui da onça, recordando, ela foi atropelada enquanto estava acompanhada pela mãe. Era um “filhotão” ainda acompanhado pela mãe. Quando a polícia chegou, a mãe onça fugiu e ficou só o filhote. Então, uma onça com um histórico super trágico, super traumático, merece um local que a receba com dignidade.

Rafael Ferreira: As onças-pardas tendem a fugir quando há algum encontro eventual com humanos.

Em novembro de 2022, uma moradora de Paranaíba, Mato Grosso do Sul, tomou um baita susto: em casa, decidiu ir até o banheiro da área de serviço quando deu de cara com uma onça-parda que estava abrigada no cômodo. A dona da casa chamou a Polícia Militar Ambiental de Aparecida do Taboado, que fica a 40 km do município. Capturado, o animal foi devolvido ao habitat natural no mesmo dia. Um encontro sem tiros, sem violência e em que tudo acabou bem.

Mas que não acaba com o problema. Afinal, a perda do habitat é a principal responsável por empurrar os animais para dentro de áreas habitadas por seres humanos, em busca, principalmente, de alimento. Nessas horas que o encontro com o bicho-homem pode ocorrer. E essa  aproximação pode fazer o animal se sentir acuado, o que aumenta o risco de um ataque, principalmente se tratando de felinos.

Izar Aximoff: A gente recomenda, principalmente para as pessoas que moram no interior de unidades de conservação, ou mesmo no entorno, e que tenham criações de animais domésticos, de tomarem algumas atitudes como, por exemplo, durante a noite, recolher os animais. Ter toda uma estrutura, por exemplo, de galinheiro — a gente sabe que a onça-parda é um animal muito sagaz : colocar sensores de presença que acendem uma luz e, de repente, dispara um alarme. É interessante também ter alguns cachorros de segurança. E a outra questão é evitar a caça.

Rafael Ferreira: O Izar Aximoff é biólogo, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Izar Aximoff: Se o animal se aproximar, você levanta os braços e dá um grito, na esperança de que ele se afaste e se assuste. 

Rafael Ferreira: Haja sangue frio. 

Izar Aximoff: Provavelmente ela já vai ter percebido a presença da pessoa e vai embora. Nós não fazemos parte das presas que a onça tem, durante o processo de alimentação dela. E não existem registros de ataques de onças-pardas a pessoas. Então, a chance de você ser picado por uma abelha é muito maior do que você ser atacado por uma onça-parda. Mas, se você der sorte de conseguir ainda ver esse animal, as recomendações são: não correr e evitar o contato nos olhos com animal.

Duda Menegassi: Ou seja, as áreas protegidas, sejam unidades de conservação, terras indígenas, ou reservas legais e áreas de preservação permanentes, formam conexões importantes para as espécies da fauna. E é importante fazer um trabalho de educação e sensibilização com as pessoas para evitar que os encontros continuem resultando em conflitos violentos.

Rafael Ferreira: Em “Meu tio, o Iauaretê”, Tonho Beró se arrepende de ter sido caçador e passa a ser onça. O personagem de Guimarães Rosa era de origem indígena e, em determinado momento, lembrou da ancestralidade e passou a olhar para as onças como “parentes”.

“Eu sou onça, não falei?”

Mas o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, em uma palestra em que fala a respeito desse texto, indica que esse parentesco não existe porque o homem é animal, e sim pela humanidade do bicho. E é por aí que caminha o conto de Guimarães Rosa.

O que a gente ainda não te contou é que Tonho Beró, quando vira onça, é morto a tiros. É como se, lá na década de 40, Guimarães Rosa soubesse o que viria.

Longe da gente corrigir Guimarães Rosa. “Meu tio o Iauaretê” não pode ser mudado. Mas o futuro das onças, sim.

Esse foi o sexto e último episódio , uma série do Ecocast, o podcast da Associação ((o))eco de jornalismo ambiental. Em seis episódios, a gente contou as histórias que revelam e explicam alguns dos principais temas da conservação da natureza aqui no Brasil.

Este podcast teve o apoio do programa Acelerando a Transformação Digital, do Meta Journalism Project, em parceria com o Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês) e a Associação de Jornalismo Digital (Ajor). 

“Bichos, plantas e histórias que não contaram para você” tem produção da Todavós e ((o))eco.

Acesse o  nosso  site, oeco.org.br e clicando na página ESPECIAIS, você tem acesso a todas as informações sobre o projeto, com conteúdos adicionais sobre cada um dos episódios.

Este episódio tomou por base a coluna “As vidas do Leôncio”, de Rogério Cunha de Paula e da Yara de Melo Barros; “Onça-parda vai passar por cirurgia após receber mais de 30 tiros de chumbinho”, reportagem escrita por Leandro Barbosa; e a matéria “Onça-parda é vista pela 1ª vez na cidade do Rio desde 1936”, de autoria da Duda Menegassi. Todas essas e outras histórias de onça, você também encontra lá.

Este  episódio  teve  pesquisa, roteiro e apresentação, como sempre, são da Duda Menegassi e minha, Rafael Ferreira.

As externas foram gravadas no Sítio Burle Marx, no Rio de Janeiro.

A consultoria em roteiro e revisão final são da Geórgia Santos.

A edição também foi da Geórgia, junto com o Douglas Weber.

E o Douglas também fez a Sonorização e finalização.

A música original é de Gustavo Finkler. 

A estratégia de promoção, a distribuição nas redes e o conteúdo digital são da Milena Giacomini e da Gabriela Güllich, que também assina a identidade visual.

Idealização, coordenação e execução  financeira do  projeto são do Paulo André Vieira.

Além de áudios do nosso acervo, este episódio usou trecho de capítulo da novela Pantanal, da Rede Globo; do Documentário: Burle Marx, de 1970, disponível no acervo do Arquivo Nacional; de reportagem do programa RJ TV, da TV Globo Rio; e das câmeras de Segurança do Sítio Burle Marx.

Agradecemos a Yara de Melo Barros; Karine Montenegro; Rafael Andrada de Araujo Martins; Sandra Hoffman, da Assessoria de Imprensa do INEA; Catia Lima, Suzana Bezerra e Sandra Tofani, da equipe do Sítio Burle Marx 

Ao Thiago Reis, Ale Potaschef, José Orenstein, Felipe Seibel, Rodrigo Alves, Mônica Aquino, Bruna Borjaille, Alison Grausam e Thayane Guimarães, do Centro Internacional para Jornalistas. À Maia Fortes, a todos os colegas da Ajor e à toda a equipe de ((o))eco.

Nos vemos na próxima temporada!

Duda Menegassi: Se você gostou desse episódio e está curtindo o nosso trabalho, acesse oeco.org.br e saiba como virar um apoiador do jornalismo ambiental independente.

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